Felipe Jablonski Agendar conversa
Desenho a carvão de figuras alongadas entrelaçadas

Psicanálise · atendimento online e em Primavera do Leste

O que vem
quando você fala

Sou alguém falado, inventado por outros.

Felipe Jablonski, 2023

Chega uma coisa e você não sabe o nome dela. Um vazio. Uma tristeza. Uma angústia.

Fica difícil dizer o que é, mais difícil ainda dizer para alguém. A análise começa aí. Nomear move.

O que acontece

Desenho a carvão de duas figuras se encontrando entre troncos

Há um outro que fala em você. A presença dele é tão discreta que quase se confunde com a sua.

Você fala, e o que sai é seu. Mas de onde veio? Uma frase dita a você quando era mais novo. O julgamento que aparece sozinho depois de certos atos. O jeito como alguém da sua casa chamava o medo.

A gente se constitui de outros na medida em que esses outros nos fazem. Um quebra-cabeça com peças aleatórias, daqui e dali, que não formam uma imagem completa e com sentido, mas que formam algo. Peças que dão corpo a uma coisa, e essa coisa é você.

Nada do que há em você é seu. E ainda assim, é.

Analisar é ir atrás de onde essas frases vieram, uma a uma, até que dê para escolher quais você ainda quer dizer.

Sobre

Formação independente em psicanálise desde 2020: grupos de estudo e análise pessoal. Pós-graduação em Psicanálise Clínica e Intervenções Clínicas pela UNIFATEC.

Formação em Ciências Biológicas pela URI, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões. Autor de Embebição.

Atendimento a adolescentes e adultos, sob sigilo. Sessões de 50 a 60 minutos.

Escritos

  1. Não existe A psicanálise

    O saber psicanalítico não é um saber completo, um estudo programado que agrega e acumula até chegar num ponto em que esse acúmulo de saber torna o indivíduo apto a realizar sua profissão. É um estudo construído, paralelo à experiência individual e subjetiva ocorrida dentro de uma análise própria daquele que se propõe a estudá-la e de seus sentidos da vida.

    Não sei o que seria A psicanálise (com "a" maiúsculo). Penso que essa não exista. É uma coisa: para alguém que está envolto por ela, tem-se um certo esboço de sua função, mas que ainda assim parece que fica algo, restos de algo que sempre (inclusive em nossa vida) ficará faltando e insistindo em ser buscado a mais. Faltam palavras, conceitos e enunciados que abarquem por completo o que se tenta explicar sobre o que ela seria. Claro, há formas simples de se explicar, como uma que vejo ser usada bastante: "é um tratamento que escuta o inconsciente, etc".

    Mas isso não basta. Conscientemente essa frase não funciona.

    Seu ponto nodal é o surgimento a partir de Freud. Mas é como se a partir dali tivesse ocorrido apenas o plantio de uma semente, proporcionando os mais mutáveis tipos de frutos. Isso porque seu surgimento e proposta teórica não objetivam uma normalidade, mas uma aceitação da bagunça que se é. E é essa bagunça que se encaixa de forma particular em cada conceito psicanalítico. Os conceitos ajudam a escutar um sintoma, e os mais variados sintomas escutados ajudam a criar um conceito.

    No meu caso, sei a psicanálise que construo a partir dela, mas também do meu sintoma. Sei a psicanálise construída a partir de vários saberes, interpretados cada qual com sua particularidade, permitida pela psicanálise. Aquilo que sei com o que estudei e estudo, fui perceber só depois, dentro da minha própria estrutura. E no que se lê de psicanálise de outros autores, é perceptível parte de seus sintomas dentro do que é falado.

    Não existe então A psicanálise. Mas existe uma psicanálise inicial que causa todo um efeito dominó na desenvoltura de ramificações particulares causadas por esse único ponto. Seu estudo não acontece com o objetivo de comprovar a existência de algum conceito dentro da teoria discutida, mas de se usar através dos conceitos desenvolvidos a conseguir fazer uma leitura daquilo que é pouco visto, ou visto mas não percebido. Um conjunto de teoria e manejo que só surgiram depois de muito tempo de escuta, e não antes.

    A ciência como conhecemos, por exemplo, tem o objetivo e crença de encontrar respostas que reduzam e assentem o saber a uma categoria de segurança, apaziguando uma certa angústia de não saber algo.

    Já para a psicanálise, esse encontro de uma resposta pode estar ligado a uma experiência totalizante e enganadora, que proporciona não a revelação de um saber único e universal que explique o sentido das coisas, mas um saber alienante que pode impossibilitar a busca por algo a mais. E esse algo a mais, dentro da psicanálise, encontra-se na via do desejo.

    Não me entendam mal, a ciência tem muito o que oferecer e é extremamente importante, há saberes que realmente condizem com a realidade. Na psicanálise a proposta é outra.

    Enfim, falei, falei. E ainda assim não consegui explicá-la por completo a quem lê, provavelmente nunca consiga. Espero a chegada do dia que não tenha mais essa pretensão.

  2. A psicanálise não tem nada a oferecer

    Claro, se oferece um serviço, que tem sua função e lógica. Mas pela lógica de troca, não tem nada a oferecer. Lidar com isso é angustiante, pois se sabe que é necessário oferecer nada justamente para aí emergir algo que não vem dela e nem do psicanalista em sua função, mas do analisando.

    Só que para quem vem de fora, por uma lógica capitalista, chega a ser um ultraje pagar por um serviço que nada tem a oferecer. É sem sentido. Porém, esse sem sentido, por mais estranho que pareça, tem sentido, possui uma lógica que, se não for bem trabalhada, pode desestruturar todo um caso.

    Não se trata de uma relação objetal onde se paga X e você recebe Y. Na análise se tem uma aposta, quase como jogar na loteria mesmo, se faz um investimento sabendo (ou não) que provavelmente não ganhará nada. E nem essa aposta é garantia de um saber interpretado a rigor de entrega, mas sim de um saber construído ao longo do tempo, assim como depois de tanto insistir e jogar na loteria eventualmente algo pode aparecer. Foque na palavra construção.

    Acho que o que posso dizer que se tem de fato a oferecer é, pelo menos, uma escuta. O mínimo, algo raro que se tem ultimamente e que não sei nem mais se as pessoas andam fazendo tanta questão de ter. Mas, de qualquer maneira, sendo raras, até as mais sucateadas têm sua serventia.

    Inclusive por isso é cobrado também, viu? Primeiro porque é um trabalho. Segundo, todo ser humano pode tentar se dispor a escutar o outro por algum momento, mas convenhamos, ninguém aguentaria sustentar isso por muito tempo. Não se trata de falta de empatia ou coisa do tipo, mas de indisponibilidade libidinal mesmo. Se não tiver alguma forma de investimento, eu questionaria os motivos de alguém investir tanto só por puro prazer em ajudar. Nem quando amamos estamos sempre ali pelo outro.

    Mas é isso. Não temos nada a oferecer. Tem escuta. Solução e fórmula mágica, você consegue com algum guru por aí. No mais, se quer o mínimo de separação do outro e um pouco mais de autenticidade, meu nada pode servir.

  3. O passado, presente

    É no passado, mas o passado está no presente. Os dois, completamente conjugados. Acredita-se fielmente que aquilo do passado é a causa do presente: talvez seja, mas o passado já foi presente, e continua presentificando-se de maneira passageira.

    O paciente então acredita que contar do passado é importante (e é, num primeiro momento), mas o passado não foi, continua agindo no presente. É repetindo os acontecimentos desse passado por vezes e vezes, que se dá conta de que ele ainda se faz presente, ou seja, nada mudou, e a maneira de viver e interpretar o mundo à sua volta continua a mesma, repetidamente.

    Culpa-se até mesmo o passado, como se fosse outro, para justificar as queixas do presente. Mas o passado sou eu, e eu ainda estou naquele passado, presente.

  4. Sinto minha falta

    Sinto sua falta
    Sinto a sua falta
    Sinto falta de você
    Sinto a falta que você causa
    Você causa uma falta
    Sinto a falta
    Sinto a minha falta
    Sinto a falta que você deixou
    Sinto a falta de uma parte que foi embora com você

    Sinto então a sua falta
    Mas não exatamente sua...
    Sinto a minha falta, uma falta que já estava em mim
    Exposta depois do tempo arrancá-lo de mim
    Sinto uma falta, uma parte que falta

    Sinto minha falta.

  5. Há um outro que fala em mim

    Há um outro que fala em mim. Sua presença é tão sucinta, serena, que quase se confunde comigo. O que, de certa forma, é.

    Eu falo, emano, pronuncio... emissões que saem de mim, assim, são eu. Mas de onde vieram? De onde as tirei? Vieram de mim, mas antes de estar em mim, onde estavam?

    Aquilo que sou, é eu. Aquilo que digo para explicar sobre mim, sou eu. Mas de onde tirei palavras para nomear o que suponho ser eu?

    A cada frase enunciada, a cada ideia pensada, a cada resolução de um problema, a cada enigma a ser desvendado.

    Me constituo de outros, na medida que esses me fazem. Um quebra cabeça com peças aleatórias, daqui e dali, que não formam uma imagem completa e com sentido, mas que formam algo, ordenando uma imagem na desordem. Peças que dão corpo a uma coisa, essa coisa é eu.

    A cada notícia lida, dali alguns dias estou eu lá, usando do palavreado da manchete para falar sobre algo.

    Quando não tenho opinião formada em algo, ouço outros falando as suas, quando me dou por conta, me vejo em outro cenário opinando com algo que não era meu, mas de alguma forma me capturou e fez morada em mim.

    A cada frase, me vem à cabeça de onde as tirei. Uma frase direcionada a mim quando mais jovem, o julgamento interior após determinado ato, a ideia que me aparece e de onde sai a inspiração para escrever esse texto. Infinitas as associações.

    Nada do que há em mim é meu, nada do que sou é original, e ainda assim, o é.

    Sou alguém falado, inventado por outros. Me invento com partes de outros e os costuro, recorto e os grudo em mim a formar uma unidade. Enquanto um caleidoscópio com inúmeras facetas provindas de fora, há enfim, um eu.

Contato

Começar uma análise

Valores distintos para cada formato, combinados por mensagem.

Online
Todo o Brasil, por chamada de vídeo.
Presencial
Primavera do Leste, MT. Interclin Clínica de Especialidades, R. Paranatinga, 182, Centro. Somente com hora marcada.

Nada do que há em mim é meu, e ainda assim, é.

Felipe Jablonski Psicanalista Desenhos do autor